domingo, 1 de janeiro de 2012

FEUERBACH: SUA CRÍTICA DA RELIGIÃO E SEU ATEÍSMO


O ateísmo moderno nasce com a radicalização do Iluminismo francês e, depois, com Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud. Tal ateísmo penetrou em todas as camadas sociais e, sob o pretexto de cientificidade, ameaça a fé em Deus e o cristianismo. Assim, hoje, quem quiser viver a fé em Deus terá que confrontar-se também com esse tipo de ateísmo. Feuerbach realiza uma interpretação antropológica da religião, ou melhor, uma redução antropológica. Como pura antropologia, a nova religião é ateia. Nega a Deus para afirmar o homem, só o homem.

Para algumas ideologias modernas não há libertação do homem sem negação de Deus. Tal ideologistas partem do pressuposto que a religião é expressão e causa da alienação humana. Nesta linha situa-se o ateísmo de Feuerbach.

Ludwig Feuerbach (1804-1872) elaborou um materialismo para o qual só existe o homem e a natureza e "nada mais". Seres superiores são apenas o reflexo de nossa realidade, o ponto de partida desta nova filosofia é o ser real, portanto, para alcançar a verdade do ser é preciso passar do pensamento abstrato para a realidade sensível, da essência para a existência, da representação e fantasia para a intuição imediata e sensível.

1- Crítica do cristianismo e da religião
Segundo Feuerbach, a religião tem sua origem na diferença entre o homem e o animal, ou seja, na consciência do homem. Feuerbach aliena e empobrece Deus, para ele o homem projeta Deus, através daquilo que ele deseja ser, nada mais. Mostra em sua filosofia que todos os predicados atribuídos a Deus se referem ao homem também, que ambos são idênticos, Deus é homem e o homem é Deus, ou seja a consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo.

Feuerbach critica a religião por não dar a devida importância a vida no presente, colocando toda esperança de libertação no céu. Para ele o homem religioso não se compromete com as mudanças e transformações, com as injustiças, sofrimento e miséria deste mundo, ou seja a religião aceita tudo isso e projeta a felicidade no outro mundo. Em seu livro " A essência do cristianismo" ele diz: "O céu nada mais é do que o conceito do que é verdadeiro bom, válido, daquilo que deve ser; e a terra nada mais é do que o conceito do que é falso, ilegítimo, daquilo que não deve ser." Essa é a concepção que Feuerbach tem sobre como a religião pensa.

Para ele Deus como objeto de crença, não existe, o Deus dos homens, é o seu próprio ser. Feuerbach situa-se entre os que sacrificam a religião à filosofia, ao contrário dos representantes da teologia cristã da época. Para Feuerbach a teologia é reduzida à antropologia. Deus, religião e imortalidade são destronados e é proclamada a república filosófica na qual "o homem é deus para o homem."

A espécie para Feuerbach é o homem pleno. Ele apresenta uma antropologia que busca a unidade entre o eu, o tu e nós (comunidade), o ateísmo é então, o caminho necessário para o homem redescobrir sua dignidade, reconquistando sua essência perdida. "A consciência de Deus é a autoconsciencia do homem, o conhecimento de Deus é o autoconhecimento do homem."

O jovem Feuerbach queria ser teólogo. Seu primeiro pensamento foi Deus, desejava tornar-se pastor luterano. Através dos professores de dogmática, onde estudou teologia interessou-se por Hegel e foi a Berlim onde voltou-se para a razão. De hegeliano transformou-se em ateu.

2- A verdade da religião é a antropologia
Feuerbach diz que "O mistério da teologia é a antropologia", o ponto de partida não é mais Deus como afirma Hegel, e sim o próprio homem, ele valoriza o homem em relação a humanidade, o homem é o eu e o tu em sua reciprocidade, a espécie humana é o começo meio e o fim da religião.

Feuerbach concebe ao homem como ser social, a relação do homem com o homem, a unidade do eu e tu é Deus. Ele diz que a religião faz parte integrante da infância da humanidade, Deus é conceito personificado da humanidade e a religião um produto humano, tão somente, Deus, diz ele, é o reflexo que o homem faz de si mesmo, as propriedades de Deus são as do homem.

Dizer que Deus é amor e perfeito, é uma projeção da vontade e do coração humano, interpretando desta forma os dogmas cristãos, e que a ressureição de Cristo é a projeção do homem no desejo de ser imortal, é o ser divino e o ser humano em si próprio e ilimitado, o homem pobre projeta um Deus rico, diz ele que, para o homem, a religiâo é a divisão do homem consigo mesmo, considera Deus e homem duas coisas distintas e antagônicas.

Feuerbach diz que o homem precisa amar e crêr no próprio homem e não em Deus, precisa interessar-se nas coisas terrenas no aqui e agora; e não nas coisas do outro lado. Ele coloca a natureza como base da religião, diviniza a matéria, da qual o homem faz parte e funda a religião no sentido de dependência da natureza onde ele afirma que a verdadeira base da filosofia é a natureza, a natureza, diz ele: é o próprio princípio e ponto de partida da religião, transformando assim a teologia em filosofia.

Para ele o fundamento da religião é a divindade da natureza e a divindade humana e o fim de toda a religião vai dar na antropologia, e, o ateísmo é a forma de afirmar a verdadeira essência do homem restituindo-lhe sua divindade.

Feuerbach diz ainda que, os símbolos são sem sentido e não referem-se a Deus e sim ao homem, religião é antropologia, tudo que o homem projeta em Deus através da religiosidade é uma projeção de desejos e sonhos.

3- Crítica à crítica de Feuerbach
No fundo, Feuerbach é filósofo clássico e metafísico. Apesar de seu materialismo, nunca conseguiu acesso ao real e, por isso, nunca deixou de ser idealista. Tanto na sua interpretação antropológica como em sua interpretação da natureza permanecem elementos metafísicos, pois tanto a natureza como a espécie humana são caracterizadas como infinitas sem fundamentação crítica suficiente.

Feuerbach quer ser ateu consciente, conclui dizendo que Deus não existe, ao menos não da maneira separada do homem e da natureza. Mas o conceito de ateísmo é insuficiente para caracterizar sua posição.

A importância de Feuerbach para o problema da crítica religiosa consiste em ter ele tornado o tema da religião tema central de seu pensamento, com seu método genético-crítico tenta explicar não só o fato da religião, mas até seus conteúdos. E tudo decide com um dogmático "e nada mais". Sua antropologia é a única chave para explicar tudo. Em outras palavras, é o único dogma inquestionável, não se deve exagerar nem menosprezar a crìtica que Feuerbach faz da religião. Teologia e filosofia da religião deverão indagar os fundamentos de seu ateísmo numa discussão crítica.

Feuerbach nunca demonstrou a não-existência de Deus, em momento algum Feuerbach fundamentou a infinitude da essência humana. Simplesmente a postulou. Na verdade, Feuerbach reconhece a finitude do indivíduo. Mas a espécie humana, para ele, é infinita. O indivíduo só toma consciência de sua finitude no confronto com a infinitude da espécie. A essência da espécie, que é a essência absoluta do indivíduo, é infinita. Aqui revela-se que Feuerbach não conseguiu libertar-se totalmente da metafísica teológica.

Feuerbach tenta fundamentar seu ateísmo a partir da história e da psicologia. Anuncia o fim do cristianismo, dizendo que "para o lugar da fé entrou a descrença; para o lugar da Bíblia, a razão; para o lugar da religião e da Igreja, a política; a terra substituiu o céu; o trabalho substituiu a oração; a necessidade material, o inferno; o homem, o cristão.". Feuerbach critica o cristianismo por ter feito desaparecer o homem como humanidade, como espécie, como comunidade universal, substituindo pelo conceito de Deus. Com isso não quer eliminar a moral, pois segundo ele, a justiça, a bondade e o amor têm fundamentos em si mesmos, Se Feuerbach, com sua tese secularista, profetizou o fim do cristianismo, constatamos, sem dificuldade maior, que essa tese até hoje ainda não se realizou, ao contrário, podemos admitir que também o ateísmo proposto por Feuerbach já entrou em crise por falta de fundamentos racionais, existenciais e até históricos.

Feuerbach defendeu o ateísmo mais intuitivamente, ou seja sem fundamentá-lo crítica e cientificamente. Apesar disso constitui-se numa provocação permanente, num desafio, e as questões por ele formuladas perduram até hoje e não devem mais ser ignoradas.


Referência Bibliográfica:
ZILLES, Urbano, Filosofia da Religião, 6ª ed., São Paulo, Paulus, 2007.

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