sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A TEOLOGIA GNÓSTICA DE MATRIX


A palavra gnosticismo é derivada do termo grego gnôsis e significa conhecimento. Surgiu como heresia cristã no final do século I, sendo combatida principalmente pelo apóstolo João. Seus seguidores se caracterizavam pelo menosprezo da matéria, da carne e supervalorizam a alma-espírito, sendo que a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação.

Este dualismo gnóstico se traduz na concepção da ordem cósmica e moral, na luta do bem contra o mal e na queda da alma no corpo. Os gnósticos tinham duas principais preocupações: a criação e o mal. Se Deus é bom, como criou o mundo, de onde vem o mal? Se não criou o mal, não é o criador único das coisas. Assim a gnose tinha por objetivo resolver as seguintes questões:
1- De onde procede o mal do mundo?
2- Como se originou a matéria?
3- Como se unem, no homem, matéria e espírito?
4- Como se liberta o espírito da matéria e volta para Deus?

Para resolver estas questões criaram um sistema complicadíssimo de se compreender: há um reino de luz, que é o Deus bom e o das trevas que é o da Matéria eterna. Entre Deus e o organizador da Matéria, o Demiurgo, há um número incalculável de graduações, que eram chamadas de Eões. Estes por sua vez, são as emanações superiores que participam dos atributos da essência divina, distribuídos em classes. A união dos Eões formava o Pleroma ou plenitude da Inteligência. A emanação última, mais imperfeita, foi o criador da matéria sendo este o Deus adorado no Antigo Testamento. Em outras palavras, o Demiurgo, criador deste mundo material era o último dos Eões, o mais afastado de Deus, que roubou uma centelha da Plenitude divina para com ela animar a matéria. Para os gnósticos esta é a origem do mundo.

O Gnosticismo faz de Cristo um Eão superior, um Nõus (Inteligência-Logos) enviado por Deus para revelar aos homens o Deus supremo e verdadeiro até então desconhecido e lhes ensinar como superar a matéria. Esse Eão apoderou-se de Jesus de Nazaré no momento em que foi batizado no Jordão. Daí por diante sua mente se iluminou e compreendeu que sua missão era levar aos homens a verdadeira gnose, isto é, conhecimento que é o Evangelho, para libertar os homens da matéria. Quando o Evangelho completar sua obra na terra, todas as parcelas do espírito divino, aprisionadas na matéria, voltarão à Plenitude de Deus.

Portanto, para os gnósticos existem dois mundos: o mundo material, mau, e o mundo espiritual, bom. O homem possui um elemento material, o corpo, a carne, e um elemento espiritual, a alma, que se constitui no verdadeiro homem e que está sem saber aprisionada pelo corpo. A salvação gnóstica consiste da alma sair deste mundo material, mal, voltado à destruição, e voltar ao mundo espiritual do Pai. Portanto, a salvação está assegurada somente aos "espirituais" gnósticos[1], àqueles que têm, em si mesmos, a centelha divina originária. Esta centelha é despertada por um processo de conhecimento através da revelação feita ao espírito, através do qual a alma do gnóstico toma consciência da sua verdadeira natureza: Aprisionada e sufocada pela matéria, aspira libertar-se dos limites do corpo e do mundo material.

A produção cinematográfica americana-australiana Matrix[2], dirigida pelos irmãos Wachowski e estrelada por Keanu Reeves e Laurence Fishburne, é uma adaptação do gnosticismo para o universo pop e tecnológico.


Na trama, a humanidade vive sem saber em um mundo dominado pelas máquinas. O personagem de Reeves, Neo, ajudado por Morpheus (Fishburne), desperta de uma ilusão para salvar o mundo. Jesus, para os gnósticos, faz o papel de Neo.

Neo descobre que tudo o que tinha vivido até aquele momento tinha sido ilusão. O mundo no qual havia crescido não passava de um sonho projetado em sua mente, e de todas as pessoas do mundo, pelas máquinas, este mundo fantasioso é chamado de Matrix. Na verdade as pessoas são fabricadas pelas máquinas e passam toda as suas vidas presas em casulos, pois estas usam o calor gerado pelo corpo humano como fonte de energia.



Morpheus, afirma que Neo é o escolhido para vencer as máquinas e libertar as mentes humanas do mundo fantasioso em que se encontram, levando-as ao conhecimento da verdadeira realidade.

O vídeo abaixo é trecho do filme onde Morpheus explica para Neo o que é a Matrix.



Notas:

[1] Para os gnósticos a humanidade estava dividida em três classes ou categorias: os hilícos, que eram os pagãos, os materiais. Estes seriam eliminados com a matéria; os psíquicos ou anímicos, eram os cristãos ordinários, em quem a Matéria e o Espírito estão em equilíbrio. Estes gozariam uma felicidade de segunda classe, intermediária; e por último, os espirituais ou gnósticos, os instruídos, em quem a matéria é dominada totalmente pelo Espírito de Deus.

[2] Lançado no ano de 1999, Matrix possui duas continuações: Matrix Reloaded, lançada em maio de 2003, e Matrix Revolutions, lançada em novembro de 2003.


Referências Bibliográficas:

FRANGIOTTI, Roque. História das Heresias (séculos I-VII) - Conflitos Ideológicos Dentro do Cristianismo. 5ª ed. São Paulo, Paulus, 2007.

PADILLA, Ivan e CAVALLARI, Marcelo Musa. A Religião de Matrix em O Evangelho Segundo Judas - O que levou o último dos apóstolos a trair Jesus? A resposta pode estar em manuscritos inéditos que trazem a versão do traidor. Revista Época nº 405, 20 de fevereiro de 2006, São Paulo, Editora Globo

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