sábado, 10 de dezembro de 2011

A CRISTOLOGIA DE AGOSTINHO DE HIPONA


Após séculos de concílios e debates, foi somente em Agostinho (354-430d.C), bispo de Hipona, que o cristianismo ocidental, alcançou a sua concepção final sobre a Trindade, e por conseguinte sobre a pessoa de Jesus Cristo.

Agostinho aceitou a verdade de que Deus é uma Trindade composta pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são distintos, mas possuindo uma substância. Agostinho jamais tentou demonstrar racionalmente esta verdade, pois afirmava que se tratava de uma revelação proclamada em quase todas as páginas das Escrituras Sagradas.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo, isto é, a própria Trindade, uma e suprema realidade, é a única Coisa a ser fruída ( una quaedam summa res), bem comum de todos. Se é que pode ser chamada Coisa e não, de preferência, a causa de todas as coisas - se também puder ser chamada de causa. Não é fácil encontrar um nome que possa convir a tanta grandeza e servir para denominar de maneira adequada a Trindade. A não ser que se diga que é um só Deus, de quem, por que e para quem são todas as coisas (Rm 11,36). Assim o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são cada um deles, Deus. E os três são um só Deus. Para si próprio cada um deles é substância completa e, os três juntos, uma só substância. O Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo. O Filho não é o Pai, nem o Espírito Santo. E o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho. O Pai é só Pai, o Filho unicamente Filho, e o Espírito Santo unicamente Espírito Santo. Os três possuem a mesma eternidade, a mesma imutabilidade, a mesma majestade, o mesmo poder. No Pai está a unidade, no Filho a igualdade e no Espírito Santo a harmonia entre a unidade e a igualdade. Esses três atributos todos são um só, todos são iguais por causa do Filho e todos são conexos por causa do Espírito Santo. [1]

Sua reflexão teológica é baseada em seu esforço de compreender, a Trindade e não explicá-la, pois para Agostinho a fé deveria preceder ao entendimento (praecedit fides, sequitur intellectus).

(...) A fé busca, o entendimento encontra; por isso diz o profeta: "Se não credes, não entendereis" (Is 7,9). Doutro lado, o entendimento prossegue buscando aquele que a fé encontrou, pois Deus, " olha do céu para os filhos dos homens", como é cantado no salmo sagrado: "para ver se há alguém que tenha inteligência e busque a Deus" (Sl 13,2). Logo, é para isso que o homem deve ser inteligente: para buscar a Deus. [2]

Sua doutrina trinitária é totalmente baseada nas Escrituras Sagradas, mas diferentemente de outros teólogos, Agostinho não faz do Pai o seu ponto de partida, e sim a natureza divina em si mesmo, simples e imutável que é a Trindade. Agostinho enfatiza a unidade da natureza divina pois o Deus único e verdadeiro não é somente o Pai, mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo. [3]

Em relação a Jesus Cristo, Agostinho afirma que O Filho é portanto, igual ao Pai em tudo e  forma única e mesma substância com ele. [4]

Para Agostinho por ser verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, Jesus Cristo é o mediador perfeito entre Deus e os homens.

Convinha que o mediador entre Deus e os homens tivesse semelhança com Deus e os homens; pois se parecesse só com os homens, estaria longe de Deus, e se fosse semelhante só a Deus, estaria longe dos homens. Assim, não haveria mediador! [5]

Agostinho afirmava que, se o mediador fosse apenas homem, este não conseguiria levar a humanidade até Deus, pois também seria fraco e pecador, mas se fosse somente Deus, a humanidade não o compreenderia, pois Deus é incompreensível. Assim Jesus Cristo, sendo Deus e Homem, é o verdadeiro e único mediador, mas desempenhando esta função somente enquanto homem. Como Verbo não é intermediário, porque é igual a Deus e é Deus em Deus, sendo ao mesmo tempo um só Deus. [6]

Para o bispo de Hipona, o homem caído em seus delitos e pecados não poderia alcançar a Deus, mas este por sua graça, através da encarnação, se tornou acessível a humanidade, pois é possível a um homem se aproximar de outro, então através de um homem plenamente divino e plenamente humano, o homem conseguirá se aproximar de Deus. Por este motivo Deus se fez homem, para que fazendo o que lhe é possível, seguir um homem, a humanidade consiga o que antes lhe era impossível, alcançar a Deus.



Notas:

[1] A Doutrina Cristã 1.5 apud www.monergismo.com/.../trindade/Trinitate_Agostinho_Franklim.pdf-

[2] A Trindade 15.2

[3] Idem 6.9

[4] Idem 6.5

[5] Confissões 10.42

[6] Idem 10.43



Referências Bibliográficas:

AGOSTINHO, Confissões, 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

___________,  A Trindade. Coleção Patrística vol. 7, 1 ed. São Paulo: Paulus, 1994.

GRACIOSO, Joel. O caminho do bem de Santo Agostinho Revista Biblioteca Entre Livros, Santa Filosofia, A condição humana na reflexão dos grandes pensadores cristãos. Edição especial nº 7. São Paulo: Duetto, p. 54-59, 2008.



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