sexta-feira, 8 de julho de 2011

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, O CAMPEÃO DA ORTODOXIA


A controvérsia ariana. Parte I


Até o início do século IV, o cristianismo não possuía uma ortodoxia[1] oficial estabelecida, sendo que os teólogos cristãos se viam obrigados a combater diversos pensadores, que também tinham por objetivo explicar de forma racional a fé cristã, principalmente o relacionamento de Jesus Cristo com o Deus Pai.


Ao longo do século IV ganha força uma nova concepção a cerca da pessoa de Jesus Cristo, o subordinacionalismo. Este pensamento reconhece que Jesus Cristo é o Filho criado pelo Pai antes da fundação do mundo, e que foi o mediador na criação de todas as coisas, sendo a mais nobre de todas as criaturas. Mas é subordinado ao Pai, pois só este é rigorosamente Deus, sendo o Filho um "deus subordinado" ou um Déutero Theós (segundo deus).

O mais famoso subordinacionalista foi Ário (256-336d.C.), presbítero da cidade de Alexandria, ensinava que Deus se constitui um mistério indecifrável e sua natureza é incomunicável, sendo que para entrar em contato com o mundo, se serviu de um mediador que é o Logos, não sendo este da mesma natureza que o Pai, mais o primeiro ser criado e adotado como Filho por Deus[2]. Buscava assim remover as dificuldades filosóficas da doutrina Trinitariana.

Esta doutrina atraiu um grande número de seguidores se constituindo na primeira dificuldade doutrinal da Igreja após a legalização da religião cristã pelo imperador romano Constantino I ( 272-337d.C.).

Constantino objetivava unir o Império, e queria se utilizar da mensagem conciliadora do cristianismo para tal, mas encontrou uma igreja dividida entre arianos e trinitários. Vendo que esta questão poderia causar uma ruptura interna no Império, no ano de 325 convocou os bispos de todas as províncias para estarem na cidade de Niceia discutindo sobre esta questão. Entre os presentes encontrava-se Atanásio, um diácono novo e companheiro do Bispo Alexandre de Alexandria, que se distingui como o lutador mais vigoroso contra os arianos.

Atanásio (295?-373 d.C.) entendia que a divindade de Jesus Cristo é fundamental para o plano de salvação da humanidade, pois a razão humana não foi suficiente para salvar o homem da corrupção. Foi necessário a vinda de Cristo, o "Verbo divino"[3] se encarnando e unindo a natureza humana a Deus, sendo este momento decisivo para a salvação do homem pois o próprio Deus derrubou a barreira que o separava da humanidade trazendo o conhecimento de sua verdadeira natureza, se fazendo "homem para que fôssemos deificados; tornou-se corporalmente visível, a fim de adquirirmos uma noção do Pai invisível. Suportou ultrajes da parte dos homens, para que participemos da imortalidade. Com isso nenhum dano suportou, sendo impassível e incorruptível, o próprio Verbo e Deus. Mas, em sua própria impassibilidade guardou e preservou os homens sofredores, em prol dos quais tudo isso suportara."[4]

O centro da teologia de Atanásio é a ideia de um Deus acessível, e que através de Jesus Cristo o homem pode se unir a Ele, pois na sua encarnação Jesus se tornou verdadeiramente um "Deus Conosco".[5]

Por estes motivos o semideus, ou o deus secundário proposto pelo arianismo seria inútil para a redenção, se constituindo, segundo Atanásio, uma traição e até mesmo o fim da fé genuinamente cristã.

Ao final do Concílio em Niceia, a doutrina ariana foi considerada herética e anatematizada com um total de 300 votos a favor e 2 contra. Ficando estabelecida como ortodoxia a fé na divindade total de Jesus, não sendo este uma criatura, mas gerado pelo Pai desde toda a eternidade, de natureza e divindades idênticas ao Pai.

Mas a derrota no concílio não significou o fim do arianismo, que continuou crescendo e conquistando novos seguidores, entre eles Constaça, irmã do imperador, e que trabalhou para o fortalecimento do arianismo junto a corte imperial. Em 337 com a morte do imperador Constantino, o novo imperador do oriente, Constante, se mostra simpático as doutrinas arianas, causando um novo fortalecimento das mesmas e uma perseguição aos ortodoxos, especialmente a Atanásio.

Atanásio havia de tornado bispo da cidade de Alexandria no ano de 328 após a morte de Alexandre. Mesmo sofrendo perseguições imperiais e vários exílios continuou firme em seu propósito de defender a fé cristã.

Atanásio é considerado um "pilar da igreja", através de quem, no momento doutrinal mais difícil da igreja, Deus preservou a verdadeira fé. Como resultado dos esforços de toda a sua vida, a crença em Cristo,  permaneceu no sentido mais estrito, como genuína crença em Deus.


Notas:

[1] Ortodoxia é a " Qualidade de uma declaração doutrinária, que se acha de acordo com o ensino revelado no Antigo e no Novo Testamentos. Ortodoxia é, também, o conjunto de doutrinas provindas da Bíblia, e tidas como verdadeiras de conformidade com os credos, concílios e convenções da Igreja." ANDRADE, 2006, 286.

[2] Este pensamento influência até os dias de hoje grupos considerados heterodoxos, como por exemplo a Sociedade Torre de Vigia, conhecida popularmente como "Testemunhas de Jeová" grupo criado nos EUA em 1872 por Charles Taze Russel, e ensina oficialmente que "Mesmo após a sua morte e ressurreição, e sua ascensão aos céus, Jesus ainda não é igual ao seu Pai. (...) É evidente que Jesus não é o Deus Todo-poderoso. (...) Antes de vir à terra, Jesus era chamado a Palavra (ou o Verbo) de Deus. Este título mostra que ele servia no céu como porta-voz de Deus. (...) Isto significa que ele foi criado antes de todos os outros filhos espirituais de Deus e que é o único criado diretamente por Deus." Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, 1989, 39-40, 58.

[3] Contra os Pagãos, 40

[4] A Encarnação do Verbo 54,3

[5] Mateus 1,23


Referências Bibliográficas:

ATANÁSIO. Contra os pagãos, A Encarnação do Verbo, Apologia ao imperador Constâncio, Apologia de sua fuga, Vida e conduta de S. Antão. Coleção Patrística vol. 18, 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2010.

ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 15ª ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006.

Bíblia Sagrada, Tradução Brasileira. Barueri. Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

CAMPENHAUSEN, Hans von. Os Pais da Igreja, A vida e a doutrina dos primeiros teólogos cristãos. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005.

Poderá Viver para Sempre no Paraíso na Terra. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Cesário Lange, 1989.








2 comentários:

  1. Bom trabalho, me ajudou em um trabalho de apologética que estou escrevendo, aproveitei algo de seus comentários, dando os devidos créditos.

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  2. Bom trabalho, me ajudou em um trabalho de apologética que estou escrevendo, aproveitei algo de seus comentários, dando os devidos créditos.

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