segunda-feira, 23 de maio de 2016

JEJUM NÃO SE APRENDE NA ESCOLA



Artigo de minha autoria publicado no jornal "Mensageiro da Paz" em abril de 2016.

O jejum é uma das práticas devocionais mais antigas do povo de Deus. Consiste na abstinência total, ou parcial de alimento durante um determinado período, tendo como objetivo o aperfeiçoamento do exercício da oração e da meditação da palavra de Deus. Apesar de ser praticado por outras correntes religiosas, o verdadeiro jejum que agrada ao Senhor deve estar de acordo com a Sua Palavra, pois ela é o nosso manual de fé e prática.
Moisés, Davi, Daniel e Ester estão entre aqueles que praticavam o jejum. O próprio Senhor Jesus, nosso maior exemplo, jejuou. Através destes exemplos somos convidados a jejuar e buscar um momento de mais consagração e intimidade com Deus.
Recentemente uma cantora gospel que também é pastora inaugurou uma “Escola de Jejum”, onde os interessados devem pagar a quantia de 50,00 por uma aula que tem a duração de duas horas, sendo ministrado uma vez por semana, por duas semanas. Nestas aulas, que segundo ela são “tremendas”, os alunos aprendem que o verdadeiro significado do jejum que é “fazer a vontade de Deus.”



O jejum sempre é citado por esta cantora como uma fonte de bênçãos, mas seu entendimento sobre o assunto é totalmente equivocado, pois para ela a pessoa ao mesmo tempo pode jejuar e continuar comendo normalmente, bastando que ore a cada seis horas.
Ela afirma que o jejum não precisa ser necessariamente de alimentos, pode ser um período sem ver televisão ou acessar a internet ou basta abster-se de certo tipo de alimento como doces e refrigerantes (alimentos supérfluos) e pães. Seu embasamento, para ensinar um jejum tão flexível, parte do pressuposto de que “não há regras fixas na Bíblia sobre quando jejuar ou qual tipo de jejum praticar.”
Interpretando erroneamente o texto de Isaías 58, a pastora afirma que “jejum não é ficar sem comer, é fazer a luz de Deus brilhar.”, mas com uma leitura atenta do texto, podemos concluir que Deus não condena a abstenção de alimentos praticada por Israel no jejum, mas adverte que antes de jejuar, os israelitas deveriam ter uma vida de obediência aos mandamentos divinos e de amor ao próximo, pois somente assim seriam abençoados. O profeta ensina que jejum sem vida piedosa é hipocrisia.
Suas declarações sobre o assunto dão a entender que para ela tudo é jejum.  Quando o cristão ora, louva, pratica boas ações e libera o perdão para quem o ofendeu está também jejuando. Mas ao afirmar que tudo é jejum, ela na verdade está dizendo que o jejum é nada, pois o está esvaziando de seu verdadeiro sentido.
Mas será que realmente a Bíblia não nos ensina a maneira correta da prática do jejum? Com certeza a Palavra de Deus tem as respostas para todas as perguntas feitas pelo ser humano. Se pensarmos o contrário, estamos negligenciando seu proveito para o ensino, para redarguir, para corrigir e nos instruir em justiça (cf. 2 Tm 3.16).
A Bíblia nos ensina de maneira clara e simples o real significado do jejum e a maneira correta de jejuar. Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, no seu Sermão da Montanha, abordou de maneira contundente o assunto afirmando que o jejum não deve ser feito com o objetivo de chamar a atenção dos homens, pois é hipocrisia. A humilhação não deve ser exterior, mas no coração onde somente Deus vê (Mt 6.16-18), o reformador francês João Calvino afirmou que o objetivo principal do jejum é quebrantar ou romper os corações e não a roupa.
O jejum em si, como qualquer outra forma de ascetismo, em nada acrescenta a nossa salvação, pois ela já foi conquistada por Cristo na cruz do calvário. Nossa salvação não depende da quantidade de vezes que jejuamos. Mas então por que devemos jejuar? Qual a importância do jejum para a vida cristã?
A atitude de jejuar não deve ser encarada como uma autoflagelação, antes deve ser vista como um momento de alegria (Zc 8.19), pois quando jejuamos estamos nos dedicando integralmente a oração e a meditação. Todo o nosso tempo, ser e emoções estão voltados para a busca de objetivos espirituais em Deus.
O jejum deve ser feito com algum propósito, pois se não for assim, será apenas uma dieta alimentar. Segundo a Bíblia de Estudo Pentecostal, o jejum pode ser feito com os seguintes objetivos: Honrar a Deus (Lc 2.37; At 13.2); pode ser uma atitude de humilhação perante o Senhor (Sl 35.13; Ed 8.21) para alcançar mais graça e assim desfrutar da presença intima de Deus (1 Pe 5.5; Is 57.15); expressar arrependimento pelos pecados cometidos  e pesar pelos pecados da igreja, da nação e do mundo (1 Sm 7.6; Ne 9.1,2); buscar o auxílio divino na realização de novas tarefas e reafirmar nossa consagração a Ele (Mt 4.2); como forma de buscar a Deus e assim prevalecer contra forças espirituais do mal que lutam contra nós (Jz 20.26; Jl 2.12); como um meio de libertar as almas da escravidão maligna (Mt 17.14-21). A pastora, que está na direção de uma denominação e que possui uma legião de seguidores nas redes sociais, gosta de declarar que “nosso jejum não muda a Deus”, uma afirmação bastante óbvia já que uma das características do Senhor é a imutabilidade (Hb 13.8), mas podemos jejuar para demonstrar nosso arrependimento e assim preparar o caminho para Deus mudar seus propósitos declarados em julgamento (Jn 3.5,10; 1 Rs 21.27-29; 2 Sm 12.16,22);  através do jejum é possível obter o conhecimento da vontade de Deus (Dn 9.3,21,22; At 13.2,3);  e abrir caminho para o derramamento do Espírito e para o retorno de Cristo para buscar a sua Igreja (Mt 9.15).
Afirmar que a Bíblia não estabelece regras para o jejum é demonstrar desconhecimento sobre o assunto. Através da leitura bíblica somos advertidos que os casados não podem se dedicar por longos períodos ao jejum, a não ser por consentimento mútuo (1 Co 7.5). Aprendemos através da observação dos exemplos dados pelos personagens bíblicos que o jejum absoluto, onde há total abstenção de alimentos e água, não deve ultrapassar três dias (Et 4.16; At 9.9), pois após este período o corpo desidrata colocando a saúde em risco. Um jejum que prejudica a saúde não é aceitável a Deus, pois obedecer é melhor do que sacrificar (1 Sm 15.22). Moisés e Elias fizeram este tipo de jejum por 40 dias, mas em condições sobrenaturais (Êx 34.28; 1 Rs 19.8), o jejum feito pelo Mestre, foi um jejum normal, onde há abstenção de alimentos, mas não de água (Mt 4.2).
Observamos com pesar um evento pseudo-teológico onde são ensinadas “novas revelações e interpretações” travestidas de práticas devocionais cristãs sendo tão procurado por cristãos que “tem a mente de Cristo” (1 Co 2.16). Isto é apenas um reflexo do mercantilismo da fé que infelizmente é comum em nossos dias, e que tem atraído cada vez mais pessoas interessadas mais nas bênçãos do que no Abençoador.
Para se conhecer sobre a prática do jejum não é necessário pagar 50,00 por aula, basta uma leitura atenta da Palavra de Deus, mas se mesmo assim as dúvidas persistirem, não é preciso se matricular em uma “escola” específica sobre o tema, basta procurar o maior seminário teológico do mundo, que atende a todas as faixas etárias e não cobra nenhuma taxa de seus alunos: a Escola Bíblica Dominical.

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